Mateus 20:1-7
1 Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, proprietário, que saiu de madrugada a contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Ajustou com os trabalhadores o salário de um denário por dia, e mandou-os para a sua vinha. 3 Cerca da hora terceira saiu, e viu que estavam outros, ociosos, na praça, 4 e disse-lhes: Ide também vós para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. 5 Outra vez saiu, cerca da hora sexta e da nona, e fez o mesmo. 6 Igualmente, cerca da hora undécima, saiu e achou outros que lá estavam, e perguntou-lhes: Por que estais aqui ociosos o dia todo? 7 Responderam-lhe eles: Porque ninguém nos contratou. Disse- lhes ele: Ide também vós para a vinha.
Se um pastor deseja estar capacitado para desenvolver líderes, sua primeira preocupação deve ser com a seleção daqueles que receberão sua influência específica e objetiva. O Mestre dedicou muita energia ao processo de seleção, mas aparentemente temos negligenciado este ponto.
Excetuando os próprios crentes, pois estão vinculados às igrejas locais e sob limitada influência denominacional, o bem mais precioso, o maior ativo de uma denominação é o seu quadro ministerial. Quando o ministério pastoral deteriora, basta algum período de tempo para que toda a geração de crentes se deteriore também. O ministério é o gargalo da igreja e da denominação. Não se consegue ir além dele. A aceitação do sacerdócio universal dos santos, diferente do que se poderia imaginar, só torna ainda mais exigente o investimento no ministério pastoral que tem a função de “equipar os santos”.
Numa denominação onde a igreja local é autônoma – sozinha pode ser um termo mais adequado em muitos casos – quem seleciona, supervisiona e disciplina o s pastores? A igreja local tem significativas limitações para lidar com os assuntos do pastorado. Está consolidada a compreensão de que a denominação cuida de assuntos ministeriais pela combinação de esforços 1) da igreja local, 2) da infra-estrutura de formação teológica, 3) da auto-regulação da Ordem de Pastores e, 4) da mentoria mútua entre os próprios pastores. Esta última, pouco aproveitada em nossa cultura denominacional. Cada um desses quatro esforços influencia o ministério pastoral e é influenciado por ele, mais e menos. A igreja local tem papel mais influente até que o moço inicie o curso teológico. Então os seminários têm grande oportunidade. Depois será a vez da Ordem de Pastores – auto-regulação. Em todo o tempo, a mentoria mútua deveria ser uma grande força de cooperação na seleção, formação e acompanhamento de um líder pastoral.
Todos esses agentes, entretanto, precisam estar completamente determinados a desenvolver dispositivos que diminuam o acesso ao quadro ministerial denominacional daqueles que não evidenciam genuína chamada. Falhas nessa área resultarão em incalculáveis prejuízos à denominação e ao Reino. Quanto esforço é desperdiçado pelos pastores, pelas igrejas, pelos seminários e pela Denominação com o investimento naqueles que se dizem vocacionados e não o foram de fato?
Acertar na seleção dos candidatos à liderança equivale a um percentual enorme do sucesso de nosso trabalho. Certa vez tive que hospedar um conferencista. Escolhi o irmão que tinha a casa mais bonita e consegui desagradar ao irmão que hospedou, pois não queria visitas; desagradei o conferencista, pois não se sentiu à vontade, mesmo com o luxo da casa, e desagradei a um outro irmão da igreja que tinha uma casa simples, mas era limpa e ele e a esposa eram muito hospitaleiros.
Alguns exemplos da seleção de vocacionados para o ministério podem ser destacados:
- Moisés = o povo e os líderes políticos reconhecem pela extraordinária demonstração do poder de Deus pelas mãos de Moisés
- Samuel = dedicação da mãe e orientação de um profeta mais velho
- Apóstolos = o Senhor estava presente fisicamente e os confirmou
- Missionários primitivos = Ação clara do Espírito Santo e assembléia da Igreja (discernimento)
- Realidade hoje: as três peneiras: igreja local, seminários e concílio de pastores
Precisamos entender com coragem a verdade que nosso processo de seleção é falho. A igreja local encaminha para a formação teológica, o seminário convive quatro anos com aquele que se diz vocacionado, a igreja local retoma o processo e solicita o concílio de exame, os pastores examinam e recomendam a ordenação, a igreja retoma o processo e consagra um jovem que nunca foi de fato chamado pelo Senhor. Nossas peneiras da seleção estão rasgadas.
A OPBB convidou Lowell Bailey para treinar os presidentes e executivos das seções nos 14 princípios sugeridos por Topic Brasil para a capacitação de líderes pastorais. Um dos princípios é “Seleção – Identificando em quem investir”. Quando Lowell terminou, ele pediu que cada um escrevesse alguns nomes de pessoas que estavam capacitando no momento. A dificuldade que encontramos para listar os nomes dos que estávamos capacitando foi reveladora. Não temos uma cultura de fazer sucessores ministeriais. Parece que achamos que a capacitação se dá como obra do acaso e não como resultado de uma ação determinada e pessoal. Talvez pelo excesso de alguns, criamos uma ojeriza à idéia de termos discípulos.
Entenda que Deus não delega o recrutamento.
Jesus contou a parábola do fazendeiro que saiu a contratar trabalhadores para a sua seara. Há duas funções que são bem definidas como sendo específicas do Senhor: o recrutamento e o pagamento. Outros textos fazem referência a outros agentes cooperando na seleção, mas não há qualquer base bíblica para se admitir um trabalhador que não tenha experiência pessoal de chamado pelo próprio Fazendeiro, o Senhor da Seara. Todo o raciocínio da autoridade apostólica - veja, por exemplo, os argumentos de Paulo aos Gálatas - é baseado na experiência de que o líder esteve pessoalmente com o Senhor e recebeu dEle uma missão. Quando o nosso “sistema” admite no pastorado uma pessoa que não viveu uma experiência genuína de conversão e de chamada, comete uma violência espiritual, uma aberração do ponto de vista bíblico.
“Saiu de madrugada a contratar trabalhadores para a sua vinha”. Depois que concebemos um plano – e Deus tinha um – a primeira pergunta não é “Quanto custa?”. A primeira pergunta – veja os princípios de administração – é “Quem?” “Quem fará?” Por isto, o fazendeiro saiu de madrugada, bem cedo. Era a era apostólica. Mas ele saiu também em outros momentos do dia, significando que outros podem entrar no quadro de obreiros posteriormente.
Alguns têm a “coragem” de debater como o Senhor deveria fazer o recrutamento. Eu gostaria que o Senhor me encontrasse discutindo com outros líderes como fazer melhor o nosso trabalho de treinar e equipar e não como Ele deveria fazer melhor o trabalho dEle. Outros são ainda mais “corajosos” e querem colocar placas dizendo “Não há vagas”. Outros ainda querem estabelecer exigências novas, além das que já foram estabelecidas no Novo Testamento, para o acesso de obreiros ao ministério pastoral.
Igualmente estranho seria tentar dar “uma mãozinha” a Deus. Algumas vezes forçamos uma situação para que uma ovelha seja reconhecida como pastor. Quando nos sentimos chamados para o ministério, estávamos prontos para acatar qualquer exigência possível de ser atendida. A determinação em obedecer era tamanha que dispensava a necessidade de facilitações e jeitinhos. Desejar fazer o concílio de exame e de consagração no mesmo dia, sob o pretexto de facilitar as viagens dos parentes e amigos é uma modernidade de dar calafrios. Deveria nos incomodar até mesmo criar cursos teológicos à noite e à distância se a motivação for facilitar a vida daquele que se diz vocacionado, porque trabalha no horário comercial e não poderia se dedicar ao estudo da teologia de modo integral. Nossos concílios de exame devem questionar severamente a esses. Deve haver uma boa explicação. Quando Deus dá uma ordem, Ele dá os recursos para que ela seja obedecida.
Há casos ainda em que deveríamos nos declarar “incompetentes” para participar do concílio, visto nossos vínculos emocionais com o candidato. Até juízes do mundo se declaram impedidos quando há interesses pessoais em jogo. Brigar pela ordenação de alguém é um atrevimento, visto que se tenta tocar no papel de Deus, uma aberração. Preocupa-nos casos pontuais em que os homens insistem muito para consagrar alguém, podendo ser classificado como uso de força humana. Mais grave quando se trata de consagrar um parente (nepotismo?). Deus não precisa de uma “ajudinha” na parte que lhe cabe no recrutamento. Gideão é um bom exemplo. Por que Deus se submeteu a tais testes. Infeliz o homem que provoca a sua própria chamada. Está reservado a este o “Eu nunca vos conheci”.
Exija um padrão elevado.
Quando pediram a uma de minhas filhas para que ajudasse a fazer boca de urna, ela disse: “Eu não posso ser presa. Se eu for presa, eu nunca poderei ser uma juíza”. Para um concurso público para juíza, para julgar questões terrenas, as exigências são grandes. Entretanto, parece que alguns de nós acham que para ser pastor podemos ser mais flexiveis. Temos aceitado homens amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios.
Há algum exemplo bíblico de facilitação, de flexibilização no processo da chamada ministerial? Jesus disse: Deixe os mortos enterrar seus mortos, vem tu e segue-me agora. Obediência incondicional, radical. Relaxamento no trato das vocações é sintoma de declínio da igreja. Um mosteiro exigia que os candidatos deveriam comer bem, dormir bem e rir com facilidade (saúde emocional e física)
Quando a Assembléia Geral da OPBB em São Luís deixou de incluir o diploma de bacharel em teologia nas exigências para a convoção de um concílio, a Ordem não estava facilitando as coisas. Tanto que manteve a exigência de boa formação teológica. O que se constatou é que o diploma tinha se tornado apenas um aparato burocrático, inclusive de fácil conquista. Também é necessário reconhecer que o preparo teológico formal não é o único. Embora a construção dos seminários tenha sido um avanço, é preciso lembrar que o diploma formal é algo recente na história do cristianismo. Outro avanço já é realidade: o dos recursos tecnológicos, especialmente a Internet. A exigência de um diploma de bacharel de curso presencial tem potencial para ser considerada sem sentido em poucos anos. Precisamos, agora, desenvolver um novo mecanismo para atestar a boa formação teológica.
O humanismo gosta de valorizar que somos sujeitos a erros. Até parece que há virtude em errar. Em breve deverão criar prêmios para os pastores que cometem as erros mais terríveis. Isto é diferente do discurso de um Spurgeon que dizia: "Convertam-se em líderes e campeões. Deus lhes conceda a honra da maturidade...". Peter Drucker já dizia: "Os padrões devem ser elevados; não se pode facilitar com eles. Todos nós, que fomos trabalhar em países em desenvolvimento, cometemos o mesmo erro. Dissemos: Estas pessoas não são treinadas nem qualificadas, portanto vamos começar por baixo. Se você começar por baixo, nunca poderá subir. Devagar é diferente de baixo. No início de um novo esforço com uma pessoa nova, você vai devagar, comete erros, mas o padrão é claro. Há muito a ser dito a favor do velho professor que tive há muitos anos, que colocava na parede exemplos de boa caligrafia, no primeiro dia de aula da segunda série do primeiro grau, e dizia: 'É assim que vocês irão escrever''. Nenhum de nós poderia fazer aquilo e a maioria nunca o fez, pelo menos no meu caso. Mas nenhum de nós jamais achou que a má caligrafia fosse motivo de orgulho " (Drucker, Peter F. Administração de Organizações Sem Fins Lucrativos. Pioneira. p. 86). Hoje em dia, parece, estranhas as palavras de Jesus, quando diz: "Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai que está no céu"
Desenvolva o Discernimento
No recrutamento de vocacionados para o ministério, o nosso trabalho é o de discernimento. Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus (II Cor. 3:5). Pela forma como o candidato se apresenta, podemos perceber se ele “esteve realmente com o Senhor”, se recebeu mesmo um chamado. Se ele nos enganar quando se apresenta para o ministério, descobriremos logo a falha trabalhando ao lado dele. Ele não demonstrará os atributos de um verdadeiro homem de Deus.
Trabalhe para que todos tenham uma missão
O Senhor demonstrou preocupação com os que estavam sem o que fazer. Aquele que mandou recolher os pedaços de pães que sobraram na multiplicação fica incomodado com toda forma de desperdício, especialmente de recursos humanos que Ele mesmo desenvolveu. Deve-se haver temor de Deus também na administração dos recursos. Ele não convoca homens “sem missão” na praça da cidade para serem homens “sem missão” na vinha. O Senhor deseja que todos se sintam úteis. Não basta ir para a vinha, é necessário que os líderes da escala consigam “encaixar” na rotina do trabalho e providenciar as ferramentas para cada um que o Senhor convocava. O Senhor confiava que ao mandar trabalhadores para a vinha eles não ficariam ociosos lá. Não é difícil imaginar que na vinha havia alguns gerentes de áreas. Chegava um grupo de trabalhadores e dizia: “Esteve lá na praça um Senhor assim e assim e ele nos disse para vir trabalhar aqui na sua vinha e que no final ele nos daria o pagamento”. Aqueles gerentes, até por temor, cuidavam de dar as ferramentas necessárias, algum treinamento e orientação quanto às tarefas. Seria catastrófico se, em vez de encaminhar os novos convocados para o trabalho, ficassem discutindo como o Senhor deveria fazer melhor o serviço dEle. Igualmente, devemos ficar preocupados com a situação de centenas de pastores vivendo com um sentimento de vazio ministerial. Nosso temor a Deus deve nos fazer convocar rapidamente reuniões para solucionar o NOSSO grave problema: o de termos deixado acumular na entrada da vinha trabalhadores que o Senhor mandou. Temos que abrir novos campos (missões?), temos que distribuir melhor nossas tarefas (colegiado? organização?), temos que produzir mais ferramentas (capacitação?). A denominação não pode entender que sua responsabilidade é apenas com os missionários que estão no quadro das juntas missionárias. Todos os que foram vocacionados, são nossa responsabilidade, especialmente se os formamos e consagramos.
Decida trabalhar em parceria
Um trabalho de parceria entre os agentes – igreja local, seminários, Ordem de Pastores e pastores – na seleção dos futuros pastores pode determinar que tipo de denominação teremos no futuro. Imagine um quadro ministerial, de qualquer denominação, formado exclusivamente de genuínos vocacionados. Os pais não precisam pensar exatamente igual para estabelecer regras que serão observadas por toda a família. A falta de regras apenas prejudica a criação dos filhos. Assim, a igreja local, os seminários e a Ordem de pastores precisam seguir procedimentos padronizados no processo de seleção, formação e consagração dos vocacionados.
Seja cooperador de Deus
Somos funcionários mais antigos da vinha com a missão de ajudar os novos trabalhadores que o Senhor enviar. Muitas vezes, esses novatos se tornaram mais destacados que nós mesmos. Entretanto, cooperar com um homem de Deus no cumprimento de sua missão é tão nobre quanto realizar a obra de Deus. Uma das mais lindas imagens da história da humanidade é a de João Batista. Ele entendeu que sua missão era preparar o caminho para outro homem de Deus agir, reconhecer Este Homem e tentar facilitar o seu ministério. Jesus vai dizer depois que não houve na terra homem maior que João Batista. Porque somos cooperadores de Deus (I Cor. 3:9). Um planta, outro rega, mas Deus dá o crescimento.
Juracy Bahia, pr.
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