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DESENVOLVA DIÁLOGOS COM VISÕES DIFERENTES
Pastor Miquéas da Paz Barreto
Mensagem pregada no Congresso da OPBB - BH 14,15/01/2004
1.
Introdução ao assunto proposto. O diálogo é uma ferramenta filosófica
que se tornou uma necessidade básica para todos os níveis do relacionamento
humano. Ele é um instrumento que se faz tão necessário para os projetos do
ser humano que a história registra com fidelidade aqueles que, usando o diálogo,
deram certo e foram benéficos às pessoas com quem tiveram de se relacionar; e
os que, sem o diálogo, não deram certo, e causaram desastres na vida de
muitos. Não há nada mais triste no ministério evangélico batista do que se
tratar os valores, instituições e pessoas sem o espírito dialógico. Ousaríamos
até afirmar que não há espírito batista em qualquer igreja ou instituição
denominacional sem o uso até exaustivo do argumento dialógico. Spurgeon
afirmou num de seus sermões aos seminaristas: “Eu prefiro dirigir quinze
homens livres, a um exército de escravos”. Trabalhar um grupo de pessoas com
visões diferentes e conseguir vitórias é, de certo modo, palmilhar os
caminhos do próprio Criador, que de uma infinita “versidade” na criação
uniu tudo no Universo. Não temos que encontrar todos pensando iguais a nós
para afirmarmos: “Eu estou numa boa instituição ou numa boa igreja”. A
unanimidade conquistada coercitivamente só será benéfica para o líder
inseguro e sem a convicção da chamada do Espírito que dialoga conosco em
tudo. Devemos sempre ter em mente a palavra de Jesus: “Ai de vós quando todos
disserem bem de vós”. Se temos a convicção das verdades que estão em nós,
precisamos nos predispor para o diálogo com qualquer pessoa, em quaisquer
circunstâncias e sobre qualquer verdade que nos queiram apresentar. Não
devemos temer nada. A verdade é Jesus.
2.
Diálogo versus visões
diferentes. Sem a diferença
de pensamentos e opiniões nem seria necessária a arma do diálogo. O grande
valor desta ferramenta está exatamente no fato de não podermos encontrar
sempre as pessoas concordando conosco. Se quisermos olhar com a ótica da percepção
madura, vamos chegar a descobrir valores extraordinários nas diferenças das
outras pessoas. Murphy diz que o desenvolvimento perceptivo se faz em três estágios:
globalidade – durante o qual o mundo é mais ou menos obscuro; diferenciação
– durante o qual as figuras emergem de um fundo, e integração – durante o
qual os padrões perceptivos são formados (Approaches to personality pg.715).
Riqueza de pensamentos, de planos, de visões da obra, de potencialidades
humanas, e de uma enormidade de valores que desconhecemos, encontram-se
justamente nas diferenças pessoais singulares. Não entender a singularidade de
cada pessoa, é não entender o quanto de riqueza o Espírito de Deus quis
deixar no Corpo de Cristo, a Igreja. Paulo declara: “Subindo aos céus, levou
cativo o cativeiro, e deu dons aos homens”(Ef.4:8). Ele ainda afirma: “Ora,
há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo”(I Cor. 12:4).
2.1. Não aceitar as visões diferentes no reino de Deus é o mesmo que rejeitar a doutrina clara dos dons espirituais. O pastor “faz tudo” é uma figura grotesca do sacrificado servo que ignora a diversidade dos dons do Espírito. Até nos causa certa admiração a figura do pastor administrador, do pastor tesoureiro, do pastor diretor de patrimônio, do pastor evangelista, do pastor ex-ofício até da união feminina, do pastor visitador, do pastor que toma conta do livro de atas, do pastor que casa, batiza, dá ceia e ainda acha tempo para estudar a Palavra de Deus e pregar oito ou dez vezes por semana. Alguns carregam todo seu ministério pensando que os chamados leigos nada sabem acerca do reino de Deus. Sou muito grato a Deus por servos no ministério que vieram antes de mim e me abriram os olhos para a doutrina do Espírito que capacita cada crente. Há muitos crentes, chamados leigos, que pregam muito melhor que nós e, alguns de nós, temos receio de lhes oferecer oportunidade para alimentar o rebanho do Senhor. Havia em minha igreja, no sertão das Alagoas, um ancião que recitava o verso primeiro do salmo 23 nos cultos de oração. Ele dizia: “O Senhor é o meu bom pastor; nada me faltará”. Havia uma outra pessoa ali que muito se incomodava com aquela citação não literal e me convenceu a procurar o querido irmão para ajudá-lo a entender melhor o texto. Quando disse a ele que do modo como recitava não estava muito correto visto que no texto não aparecia o adjetivo “bom”, ele me fez uma pergunta muito simples que me ensinou muitíssimo a ouvir os outros de maneira dialógica. Ele perguntou: “Ele não é bom não?” Eu tentei me recuperar do fiasco e disse para ele: Meu irmão se o Davi tivesse lhe ouvido primeiro ele colocaria a frase com o adjetivo “bom”.
2.2. Não aceitar visões diferentes é perder por completo a visão do todo do reino de Deus. Ninguém é tão capaz que possa dispensar o modo como os outros apreendem os valores do Espírito de Deus. Eu tinha um receio enorme quando alguém chegava para mim dizendo: “Pastor, Deus me mandou lhe dizer uma coisa muito importante para o seu ministério”. Depois, o Espírito me convenceu de que ouvir alguma idéia de alguma outra pessoa a respeito do meu ministério não era nada anormal. Deve-se pedir a Deus o discernimento para ouvir tudo e reter o que for proveitoso. “A manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil” (I Co. 12:7). Por que não ouvir com atenção e carinho aqueles que nos querem ajudar com sinceridade? A maior parte das vezes, eles possuem uma sensibilidade espiritual que nós não temos condições de perceber. O dom da “ciência” na Bíblia não pertence só aos pastores. Há uma hermenêutica muito rica na cabeça de piedosos irmãos de nossas igrejas e, não poucas vezes, nós impedimos que o povo de Deus conheça esse tesouro. Precisamos ouvir as pessoas com profundidade. Carl Rogers afirma: “Ouço as palavras, as idéias, os matizes dos sentimentos, o significado pessoal, até mesmo o significado que se acha sob a intenção consciente de quem fala. Às vezes, também, numa mensagem que parece não ter importância maior, ouço um profundo clamor humano, uma silenciosa súplica que jaz encoberta sob a superficial aparência da pessoa” (Liberdade para aprender pg.219).
3.
Diálogo como
necessidade básica para enfrentar problemas. Todas
as funções profissionais conhecidas carregam uma gama de dificuldades
inerentes ao processo de sua atuação. Não poderia ser diferente no ministério
da Palavra que, de certo modo, trabalha na vida de pessoas com as mais
diversificadas funções e valores que representam. Não conto as vezes que já
ouvi de minhas próprias ovelhas a frase: “Não é fácil ser pastor”. Todos
reconhecemos esta verdade, porém, não há dúvida que usando a ferramenta do
diálogo, enfrentaremos os problemas com um pouco mais de satisfação pessoal.
3.1.
Os problemas são
inerentes à natureza do ministério pastoral.
Deus não nos chamou para cuidar de pessoas justas e boas. A grande beleza do
ministério evangélico está no fato de trabalhar com o elemento humano mais
carente e frágil que se possa encontrar na sociedade. Às vezes somos levados
erroneamente a julgar uma igreja pela sua aparência quanto ao santuário,
quanto à forma do culto, quanto ao orçamento financeiro, quanto ao salário
pastoral e afirmamos: “Esta igreja não tem muitos problemas”. Será? A
Palavra de Deus nos orienta para a realidade que vamos pastorear “Ovelhas
desgarradas”. Esta é a visão verdadeira do nosso ministério. Vamos dirigir
um povo sem norte, sem propósito, sem segurança, sem solução, por vezes, sem
nada. Tudo é só problema.
3.2.
Os problemas carecem
de uma interpretação humana para se alcançar a solução mais edificante para
a ovelha. O exercitar a
“longanimidade”, um dos caracteres do fruto do Espírito, capacita o ministério
para a edificação de vidas. O obreiro de Deus não deve condescender com o
pecado, mas deve alongar a sua alma para compreender a real situação da
ovelha, e encaminhá-la a uma solução o mais proveitosa possível. Tenho
conhecimento de um número muito maior de ovelhas carentes de cuidados, quanto
aos seus problemas, do que pastores deveras preocupados em ajudar o rebanho.
Tillich afirma que: “Uma coragem que vence as negatividades da vida individual
é possível para aqueles que participam do processo Universal” (A Coragem de
Ser pg.105). Nenhuma vocação humana participa deste processo de modo efetivo
como a vocação pastoral.
3.3.
Diálogo é a chave
mais que preciosa para se compreender os problemas dos outros.
Esta preciosidade está na abertura que o pastor alcança na atividade de
compreender os outros. O linguajar dialógico nos facilita o processo da
compreensão do mundo dos outros. Nós só poderemos usufruir os frutos desta
chave preciosa da compreensão, exercitando a confiança no outro. Carl Rogers
chegou a este entendimento afirmando: “Isto me leva a concluir que a entidade
mais digna de confiança em nosso mundo incerto é o indivíduo completamente
aberto às duas maiores fontes: os dados da experiência interior e os dados da
experiência do mundo externo” (Sobre o Poder Pessoal pg.236). Não
compreender estes dois mundos das pessoas será desastroso no processo dialógico
do entendimento.
3.4.
Diálogo, de certo
modo, encerra todas as possibilidades de acerto diante dos problemas.
Nós podemos acertar na solução dos problemas alheios sem dependermos
necessariamente daquela pessoa que se encontra envolvida emocionalmente por
eles. Não queremos afirmar que os problemas humanos, tão diversos em suas
causas e suas conseqüências, só cheguem a uma solução usando-se um método
exclusivo, mas não temos muita dúvida de que nos tornamos mais capacitados a
resolver os problemas do rebanho quando este está pronto a cooperar e
participar do processo de solução. Havendo diálogo profundo e prático, muitas
vezes, pode-se esperar até um milagre. Aliás, há um livrinho em espanhol de
suma importância no assunto que tem o título: “El Milagro Del Dialogo”.
Creio de autoria de Levi Moreno (neopsicanalista mexicano).
4.
Diálogo como
necessidade básica para achar soluções melhores.
Se se deseja achar soluções melhores, não há como dispensar o método dialógico
de buscar soluções. Esta é uma necessidade básica para o conselheiro e para
o bom administrador. Quando se almeja achar nos outros riquezas desconhecidas
pelos métodos diretivos (exemplo, psicanálise), um uso bem aprimorado do diálogo
pode nos levar a verdadeiros tesouros escondidos.
4.1.
A solução melhor não
começa com a síntese.
Quando nos encontramos no estado espiritual de auto-suficiência e proclamamos
para os que nos procuram: “Já sei o que você quer dizer e só existe esta
solução para o seu caso”. Estamos na verdade impondo a nossa visão do
problema do outro, sem que usemos corretamente o processo dialético do
conhecimento. Temos a síntese antes da tese e da antítese. Ouvi não uma só
vez, de um velho professor de pastoral, o pensamento de que, em qualquer questão,
há sempre os três lados da moeda: o lado que eu compreendo e aceito; o lado
que o outro compreende e aceita, e o lado da verdade. A solução melhor não
será a minha certamente, nem necessariamente a do outro, mas com certeza o
resultado de um encontro dialógico honesto e profundo. Quando aplicamos um
diagnóstico simplista para uma pessoa, ou mesmo um problema da instituição a
que estamos ligados, podemos alcançar uma solução, mas provavelmente não será
a melhor e mais efetiva que desejávamos.
4.2.
Diálogo subentende um
processo dialético. O
processo dialético, que é mais usado no campo da teoria política, apresenta a
idéia da tese, antítese e síntese que em muito pode nos ajudar a desenvolver
um enfrentamento dialógico dos problemas. Os problemas que se nos apresentam,
vistos do ponto de vista contrário à lógica natural, podem nos levar a uma
luz ainda não devidamente considerada. Achar que tudo só pode ser encarado do
ponto de vista da nossa observação objetiva pode nos custar muito caro, e, além
disso, nos trazer transtornos terríveis para o nosso ministério. Se não temos
capacidade para contrariar uma tese qualquer, como esperar que a verdade surja tão
fortemente? A dialética não pressupõe o ser contra, só por ser contra; nem o
diálogo é o ato de ceder passivamente aos argumentos dos outros. A questão é
como descobrir o máximo das possibilidades para se achar uma solução mais
satisfatória.
4.3.
Muito raramente a solução
melhor estará na cabeça de uma só pessoa.
Sem dúvida, temos pessoas extremamente iluminadas e que nos trazem idéias e
pensamentos maravilhosos para se aplicar a situações específicas. Porém,
quando estas idéias e pensamentos se tornam do domínio maior, eles são
normalmente melhorados e levados a uma prática bem mais aceitável por todos. A
humildade que nos leve a consultar outros mais experientes e a ouvir experiências
mais diversificadas pode nos abrir o entendimento para o uso da ferramenta do diálogo,
mesmo com visões diferentes.
5.
Diálogo como
necessidade básica para melhorar relacionamentos.
O ministério pastoral vive intensamente profundos níveis de relacionamentos
humanos. Alguns estudiosos afirmam que Jesus Cristo passou 85% do seu tempo se
relacionando com pessoas. Ele passava dias inteiros nos encontros pessoais com
seus discípulos e apóstolos. Apesar de seu ministério tão curto no espaço
de tempo, ele encontrava ocasião para dar atenção a pessoas individualmente.
5.1.
A melhora num
relacionamento já se constitui em alguma vitória.
O bom relacionamento pessoal já indica uma conquista pastoral mais efetiva.
Quanto mais nos aprofundamos no relacionamento com o nosso rebanho, tanto mais
facilitamos as vitórias na vida dele e no nosso ministério pessoal.
Relacionamento pessoal implica em conhecimento mais profundo da vida e estado em
que se encontram as nossas ovelhas. Quantos membros de nossas igrejas conhecemos
pelo nome? Jesus nos exemplificou dizendo: “eu conheço as minhas ovelhas, e
delas sou conhecido”. Quantos de nós temos a coragem de nos deixar conhecer
por nossa gente? Um colega, ao nos introduzir em novo pastorado, nos recomendou
a construção de um muro de 2 metros de altura para não sermos incomodados,
sequer com o olhar dos crentes que vinham ao culto. Eu lhe perguntei: Jesus
agiria assim?
5.2.
A melhora num
relacionamento revela uma atitude mais madura.
Tudo faz crer que o ministério pastoral moderno está muito necessitado de
investir no relacionamento mais amorável com o rebanho do Senhor. Sem o amor de
Cristo não pode haver relacionamento maduro de nossa parte. Rollo May, fazendo
um prefácio sobre o amor, na sua obra: O Homem à Procura de Si Mesmo, diz:
“Em primeiro lugar é preciso observar que o amor é na realidade um fenômeno
relativamente raro em nossa sociedade” (pg. 198). O ministério pastoral não
pode olvidar a presença deste sentimento tão forte na pessoa de Jesus Cristo.
A madureza do nosso ministério estará na dependência direta do exemplo
deixado por Jesus: “Eu os amei até o fim”. Sem a experiência do verdadeiro
amor não se cria relacionamento algum, e ainda menos um relacionamento maduro.
5.3.
Diálogo leva o outro
em consideração honrosa.
Quando se entra no espírito do diálogo prático e verdadeiro, começa-se a
observar alguns ensinos éticos, revelados nas Escrituras, da maior importância.
O apóstolo Paulo nos ensina a ter os outros sempre em maior honra (Rm 12:10).
Jesus nos deu um exemplo prático no costume do “lava pés”: “Vós me
chamais Senhor e Mestre, e dizeis bem porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e
Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros”(Jô.13:13,14).
E ainda acrescentou: “...bem-aventurados sois se as praticardes”(Jo13:17).
5.4.
Diálogo elimina a
vaidade da posição pessoal.
A maior dificuldade que um obreiro tem para vencer em sua tentação pessoal é
a vaidade. Ele sempre está sendo posto acima dos normais. Todos consideram-no
como “anjo de Deus”, e isto é muito prejudicial na maioria dos casos. É
bom sermos reconhecidos por todos de um modo especial. Isto, no entanto, não
deve nos envaidecer a ponto de não podermos nem mesmo ouvir os nossos irmãos.
O diálogo nos ajuda muito a identificar a nossa vaidade e eliminá-la para a glória
de Deus. Olhemos o exemplo de Jesus: “Por que me chamas bom? Ninguém há bom
senão um; que é Deus”(Mc10:18).
6.
Diálogo como
necessidade básica para a edificação do ministério.
O diálogo não serve somente para acharmos as soluções para a vida dos
outros. A nossa própria experiência ministerial é extremamente ajudada a
partir de uma postura dialógica em relação aos outros. Aliás, a nossa
edificação depende do diálogo em todas as dimensões. Diálogo com Deus e sua
Palavra, dimensão vertical; diálogo com os nossos semelhantes, especialmente o
nosso rebanho, dimensão horizontal.
6.1.
A falácia do preparo
intelectual. Apesar de não
se poder desmerecer o preparo acadêmico no ministério, não se pode do mesmo
modo depender dele exclusivamente. O mero preparo acadêmico contribui muito
pouco para um ministério edificado sob os olhos de Deus e com realizações
mais satisfatórias para o ministro e para o rebanho. Havia no nosso tempo de
Seminário alguns colegas que se destacavam por sua capacidade acadêmica.
Alguns terminaram os seus cursos com distinção destacada. Os outros mortais
com limites afrontados brincavam com os três mais destacados, chamando-os de
Trindade Santa: Deus Pai, Deus Filho, e Deus Espírito Santo. E quase no final
do curso, apareceu um outro intelectual novato, e, então, os normais diziam:
“Não há lugar para mais um na trindade, ele só pode ocupar agora o lugar da
virgem Maria”. O que é trágico nisto tudo, apesar do aspecto jocoso dos
seminaristas, é que quase nenhum destes, chamados “cobras”, está no ministério
edificando vida alguma. O preparo acadêmico se faz necessário, mas dentro de
uma dimensão em que o Espírito possa ser o ponto chave do uso da nossa
capacidade.
6.2.
Não se edifica o
ministério com grandes oradores sacros.
A oratória bem aplicada estimula muito a nossa admiração sobre a pessoa do
orador. O ministério necessita muito de bons oradores, mas não podemos nos
enganar de que somente a boa oratória vai conseguir edificar um ministério
verdadeiramente cristão. Em 1953 ouvi de meu pai um relato de um trabalho evangélico
que o impressionara muito. Tratava-se da Igreja Congregacional de Campina Grande
na Paraíba. Ele participara de uma EBD com 1300 alunos, isto em 53, e o que
mais o admirara foi o contato com o pastor Ximenes, obreiro incansável daquele
rebanho. Segundo ele, com uma voz muito afônica e de difícil comunicação na
oratória, ele, porém, fazia um trabalho ministerial que até hoje tem as suas
marcas claras no Nordeste do Brasil. Não podemos nos esquecer da exortação de
Paulo aos coríntios: “E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos
o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras e de sabedoria”(I
Co 2:1).
6.3.
Diálogo prepara o
ambiente para uma vida edificada na paz.
Não dá para compreender como alguém pode subir a um púlpito sem paz no coração.
Por que não seguirmos a orientação de Jesus quando nos ensina a cultuar com o
coração livre? Poderia parafraseá-lo,
dizendo: “Deixa o teu “púlpito”, reconcilia-te primeiro com teu irmão,
depois vem e prega”. Certamente que a nossa pregação seria não somente
aceita pela nossa congregação, mas pelo próprio Espírito de Cristo. O diálogo
pode preparar devidamente o ambiente para se edificar o corpo de Cristo em paz.
Se o pastor não for um promotor da paz em profundidade, como pode ele
apresentar o evangelho da paz? Somente numa linguagem respeitosa para com os
outros ele conseguirá edificar o seu rebanho, mesmo porque, “ao servo do
Senhor não convém contender, mas, sim, ser manso para com todos, apto para
ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se
porventura, Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade e tornarem
a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão
presos”(II Tm 2:24-26). Este foi o conselho do Apóstolo Paulo ao pastor
Timóteo.
6.4.
Diálogo prepara o
crente para se identificar com Cristo.
Acredito que esta foi a ferramenta mais usada por Jesus Cristo no seu ministério
terreno. Ninguém usou uma linguagem dialógica tão profunda e proveitosa como
o Senhor. Lembram o que ele disse a mulher pecadora que quase seria apedrejada
pelos religiosos ortodoxos. “Nem eu também não te condeno. Vai-te e não
peques mais” (Jo 8:11b). É isto que entendemos por linguagem dialógica
diante de visões diferentes. Ainda dá para lembrar como Ele tratou o mestre
Nicodemos? “Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?”(Jo 3:10). O seu
raciocínio não era impositivo, antes pelo contrário, Ele procurava quebrar
todas as resistências humanas com argumentos da verdade sobrenatural e divina.
Quando usamos o diálogo na nossa comunicação humana, estamos construindo o
mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus. Estamos de certo modo nos
identificando com aquele que é o rei de toda a verdade conhecida pelo ser
humano.
7.
Diálogo como
necessidade básica para o auto-aprimoramento.
Aprimorar a arte de pastorear deveria ser um objetivo permanente na vida dos
obreiros de Deus. Há muitos meios de aprimoramento do pastoreio nos dias
atuais. Congressos, clínicas de crescimento, retiros espirituais, simpósios de
reciclagem ministerial, manual de aconselhamento, projetos específicos para
especialidades dentro do ministério, cursos de mestrado em teologia prática e
muitos outros que não cabe mencioná-los aqui. Há o aprimoramento devocional e
do relacionamento com o Mestre da Galiléia. Há a dependência do Espírito de
Deus e a obediência simples aos ensinos da Palavra. Além disso, e com tudo
isso, podemos usar a ferramenta do diálogo como um meio pelo qual nós mesmos
crescemos no contato com os outros.
7.1.
O diálogo nos
disciplina na doutrina da humildade.
Não é coisa muito fácil atingir a disciplina que nos leva a um comportamento
humilde no ministério. Se formos envolvidos pela devoção constante e pela
obediência simples da Palavra de Deus, certamente iremos ouvir dos lábios de
Jesus o “... aprendei de mim que sou manso e humilde de coração...” (Mt
11:29).
Poderemos assim ter uma visão dos que nos cercam com um pouco mais de misericórdia
e, pelo diálogo, enriquecermos os nossos sentimentos não dominadores. A falta
da humildade normalmente retrata um estado de incompetência e o diálogo pode
nos ajudar a rever esta nossa fragilidade no ofício de pastorear. Goethe
expressa esta verdade quando declara: “... pois quem é incompetente para
governar seu ser interior é bem capaz de abalar a vontade de um semelhante,
mesmo enquanto à própria mente orgulhosa inclina” (citação de Rollo May na
obra O Homem à Procura de Si Mesmo pg. 167). Para este estudioso, a jactância é
irmã da incompetência. Se falta-nos a prática da doutrina da humildade,
talvez, um servo de Deus deveras humilde possa nos inspirar a tal.
7.2.
O diálogo nos livra
de muito desgaste emocional.
Quando aprendemos a usar de modo maduro a arte do diálogo, encontramos muito
descanso. Temos ouvido muitos colegas declarando: “Eu preciso mesmo é de umas
férias”. O diálogo serve aos pastores como o oásis serve aos viajantes do
deserto. Nada é mais desgastante para a alma do ministro de Deus do que uma
administração autoritária e, por conseqüência, solitária. O exemplo clássico
da Bíblia vem da observação de Jetro, sogro de Moisés, quando o viu julgando
o povo sozinho. Num verdadeiro diálogo, Moisés pôde descobrir como melhoraria
a sua atuação junto ao povo de Deus e como deixaria de se desgastar
emocionalmente com todos os problemas daquela grande cruzada.
No diálogo, Jetro disse: “Não é bom o que fazes. Totalmente
desfalecerás, assim tu como este povo que está contigo; porque este negócio
é muito difícil para ti; tu só não o podes fazer” (Ex. 18:17, 18). Ouçamos
a santa Palavra de Deus, colegas: “Tu só não o podes fazer!” Quando nós,
ministros de Deus, vamos aprender esta rica lição?
7.3.
O diálogo constrói a
paz no coração do pastor.
Pregamos para todos que a paz é um dos mais preciosos dons de Deus. Muitos, porém,
só conseguiram conquistar a paz idealizada. Só tenho 36 anos de ministério e
quero lhes testificar que o dom da paz, que trago no meu nome, trago-o também
no meu coração e no meu ministério cada dia. Tenho paz com a minha denominação,
mesmo discordando de muitas coisas de difícil entendimento; tenho paz com a
minha igreja, que me suporta por mais de duas décadas com todo carinho; tenho
paz com os meus colegas de ministério (embora o meu maior parceiro no ministério
evangélico por muitos anos seja um presbiteriano que não tem igreja: João
Campos de Oliveira), tenho paz com os meus 102 diáconos, amigos de todas as
horas difíceis; tenho paz com a minha esposa e filhos, apesar de muitas vezes
colocá-los depois do reino de Deus; enfim, tenho tido paz com todos que me
cercam, mesmo quando não posso entendê-los totalmente. Creio que a arma do diálogo
foi quem me ajudou a construir toda paz que Deus me deu até aqui.
8.
Diálogo como
necessidade básica para ajudar outros.
Somente um ministro que use com fidelidade a linguagem dialógica para tratar os
problemas enfrentados na igreja local poderá ajudar os outros efetivamente.
Para ajudar uma outra pessoa com proveito mais eficiente, necessitamos descobrir
a ótica com a qual a pessoa encara os seus problemas. Esta é uma atitude
responsavelmente dialógica. Levi Moreno, neopsicanalista mexicano, entendeu o
espírito dialógico com a seguinte figura, um tanto tosca: “É necessário,
dizia ele, que você arranque os seus olhos, e eu arranque os meus; que coloques
os teus olhos no lugar dos meus, e eu coloque os meus no lugar dos teus, para
que tu me vejas com os meus olhos; e eu te veja com os teus”. Só na
descoberta da ótica do outro, acontece o verdadeiro diálogo que possibilita
uma ajuda mais coerente com a necessidade do nosso semelhante.
8.1.
O diálogo nos conduz
a uma experiência de discipulado.
A experiência do discipulado vivido por Jesus Cristo foi alicerçada pelo falar
de modo dialógico. Ele levou muito tempo, do seu pouco tempo aqui, ministrando
pessoalmente a indivíduos. O exemplo de Jesus no “lava pés” mostra o
argumento dialógico a convencer os apóstolos da necessidade de uma vida
humilde. Se ele dissesse simplesmente: “vocês devem lavar os pés uns aos
outros”. Isto não soaria muito convincente para os discípulos. Ele os chama
a uma reflexão da sua posição pessoal de Senhor e Mestre. Eles não tinham
como discordar disto; logo, deveriam agir do mesmo modo. Quando temos o
argumento do exemplo sempre fica mais fácil levar os outros a praticarem o bem
que cremos. Outro encontro dialógico de Jesus que nos parece muito sugestivo
foi o que João descreveu no último capítulo do seu evangelho. Ele procurou a
Pedro, sem demonstrar nenhuma decepção por ele ter voltado à sua velha
profissão, e perguntou simplesmente: “Amas-me mais do que estes?” Por três
vezes fez a mesma pergunta e concluiu: “Apascenta os meus cordeirinhos”.
Quanto tempo temos gastado no nosso ministério para discipularmos pessoas a
andar no caminho que já aprendemos a andar como filhos de Deus? Se gastássemos
um pouco mais de tempo com aqueles que deveras querem aprender da Palavra de
Deus, e andar nos caminhos do Senhor, certamente o ministério evangélico
batista seria de outra monta. Jesus não se sentia perdendo tempo quando
dialogava com as pessoas. Isto ficou bem claro no encontro dele com Maria em Betânia.
Ele declarou para a irmã Marta: “Marta, Maria escolheu a melhor parte. A qual
não lhe será tirada” (Lc 10:42). Quanto tempo precioso se tem perdido em
reuniões e mais reuniões de toda sorte, que não leva em conta o valor dos
indivíduos como tais. Precisamos com mais inteligência voltar ao método dialógico
de Jesus.
8.2.
O diálogo nos desafia
ao aperfeiçoamento dos santos.
Se fôssemos mais dialógicos no trato com as pessoas que freqüentam os nossos
cultos, poderíamos descobrir um tesouro quase não mensurável bem pertinho de
nós. Ficamos procurando novos métodos de trabalho para aplicar na vida da
igreja; novas técnicas que possam facilitar a nossa atividade pastoral, porém,
Deus já colocou no Corpo de Cristo, a Igreja, dons maravilhosos que só estão
esperando ser aperfeiçoados para melhor servir a Jesus e ao seu reino aqui na
terra. Não podemos estar esquecidos que “o fruto do Espírito”, que é o
nosso novo caráter, levaremos conosco para a eternidade, mas os “dons do Espírito”
são para serem usados aqui e agora. Deus nos constituiu os aperfeiçoadores
destes tesouros do Espírito na vida dos crentes hoje, conforme a orientação
de Paulo em Efésios 4:11-16. Somente o diálogo freqüente, e de perto, pode
nos desafiar a esta tarefa tão rica. Quando não praticamos a conversa (ida e
volta) com os nossos liderados perdemos muitos tesouros espirituais da vida dos
filhos de Deus.
9. Conclusão: As diferentes visões de ministério, vocação, educação religiosa, administração, aconselhamento pastoral, discipulado cristão, até mesmo doutrina não nos devem amedrontar e nos levar a uma atitude fechada para com a vida de um modo geral. Construir uma posição dialógica para com a vida exige um ato de “coragem criadora”, como refere Tillich. Ele identifica a coragem não criadora a um ramo do existencialismo moderno:o cinismo. “Os cínicos modernos não estão prontos a seguir ninguém. Não têm crença na razão, nem critério de verdade, nem escala de valores, nem resposta à questão da significação”. Estes vivem na solidão, embora precisem de alguma companhia para se exibirem. Queira Deus, o ministério batista no Brasil, possamos desenvolver uma forma mais humilde de abordar os problemas e necessidades do povo de Deus, e do próprio ministério, respeitando as visões diferentes. Esta é a nossa sincera oração. Amém