MANTENHA UM PROFESSOR DE HOMILÉTICA

                       QUE O DESAFIE NA INDISPENSABILIDADE DA PREGAÇÃO

                                                        (1 Coríntios 2.1-5)  

 

 

Introdução                         

 

1. O Secretário Geral da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Pastor Juracy Carlos Bahia, informou-me em sua carta convite que o tema geral do Congresso é "Companheiro de Jugo", ou “Mentoria Mútua”.  A divisa se encontra em Provérbios 27.17: “Afia-se o ferro com o ferro; assim o homem afia o rosto do seu amigo


2. Cabe-me o tema “Mantenha um Professor de Pregação”.  A competência maior do tema é “Comunicar a Palavra”.

 

3. Presto minha homenagem àqueles que foram usados por Deus para mentorear-me, em nível pessoal e direto, na área da Pregação Cristã. Não estou pensando em pregadores e preletores que ouvi, ou mesmo naqueles que ouço atualmente – todos eles têm contribuído enormemente para meu ministério sermônico - mas, sim, naqueles que me assistiram pessoalmente na área da Homilética. São eles:

 

3.1. Pastor Fausto de Vasconcelos, meu saudoso pai, que leu e avaliou o manuscrito do meu primeiro sermão. Eu estava com nove anos de idade. O sermão foi baseado em Mateus 5.13-16.  Lembro-me perfeitamente daquele momento em que coloquei o sermão por debaixo da porta do escritório de meu pai, em nossa residência, na Rua Quintino Bocaiúva, 5-74, em Bauru, SP.  Não recordo o texto que escrevi nem o que meu pai disse. Mas tudo começou ali!

 

3.2. Pastor Manoel Rodrigues de Lima. Em sua residência, em Bauru, SP., em julho de 1963, preparei meu primeiro sermão para fins de proferição pública.  Essa mensagem estava baseada em Apocalipse 3.20.  Tive a oportunidade de pregá-la na então Congregação Batista do Jardim Bela Vista, da Primeira Igreja Batista de Bauru, hoje Igreja Batista no Jardim Bela Vista. Foi meu primeiro auditório de igreja.  Se bem me recordo, cerca de 40 pessoas.

 

3.3. Pastor Dr. Rubens Lopes. Infelizmente, não privei de sua amizade nem atuei sob sua liderança acadêmica ou pastoral. Se eu juntar todas as ocasiões em que conversei com ele, não chegarei a 90 minutos, se tanto.  Entretanto, tendo estudado sua teoria e prática homiléticas para fins de minha dissertação doutoral, considero-o um dos meus mentores.

 

3.4. Pastor Éber Vasconcelos. Meu saudoso primo. Uma espécie de “seminário pessoal”, cada vez que, fazendo escala em Brasília, eu retornava para o Rio no último vôo da noite ou no dia seguinte. Ênfase na centralidade da Palavra de Deus no púlpito.

 

3.5. Pastor Choung Kim. Pastor da Igreja Batista Central de Seul, Coréia do Sul. Preletor oficial do Despertar’93, em Brasília. Um contato de cinco horas, num restaurante coreano em Brasília, na companhia de seu intérprete, de seu filho (estudava, à época, no Seminário de Ft. Worth) e de um diácono da Igreja Memorial Batista de Brasília. Ênfase no púlpito como “a arma do pastor”.

 

3.6. Professores de Homilética sob cuja direção acadêmica estudei:

 

3.6.1. Dr. Jerry Stanley Key.  Professor de Homilética no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e, coincidentemente, meu professor na mesma disciplina no Seminário Teológico Batista do Sudoeste, Fort Worth, Texas.  A ênfase na observância dos princípios de elaboração do sermão.

 

3.6.2. Dr. Scott L. Tatum. Professor de Homilética no Seminário Teológico Batista do Sudoeste, Fort Worth, Texas. O monólogo múltiplo de Atos 2.

 

3.6.3. Dr. Harold V. Freeman.  Professor de Homilética no Seminário Teológico Batista do Sudoeste, Fort Worth, Texas. Supervisor acadêmico de minha dissertação doutoral. Ênfase nos verbos principalizar (neologismo), universalizar e particularizar.

 

3.6.4. Dr. Farrar Patterson.  Professor de Homilética no Seminário Teológico Batista do Sudoeste, Fort Worth, Texas. Ênfase no estudo bíblico indutivo com vistas à elaboração do sermão.

 

3.6.5. Dr. G. Earl Guinn.  Professor de Homilética no Seminário Teológico Batista do Sul, Louisville, Kentucky. Crítico severo, que costumava dizer que, se lhe fosse permitido viver outra vez, pediria a Deus mais misericórdia na avaliação dos sermões de seus alunos.

 

3.6.6. Dr. James W. Cox. Professor de Homilética e Presidente da Associação dos Professores de Homilética dos Estados Unidos e Canadá. Supervisor acadêmico do início de meus estudos doutorais em Louisville. Ênfase no texto bíblico como “fator de controle” do sermão.

 

4. Cada um dos homens de Deus citados acima exerceu sua “mentoria” junto a mim. No nível de relacionamento que mantivemos, cada um foi deles me ajudou a desenvolver a consciência da  indispensabilidade da pregação no ministério pastoral. Agradeço a Deus esses 11 mentores ou professores de Homilética.

 

5. Em meio à agenda sobrecarregada de nosso ministério pastoral, nem sempre será fácil encontrar tempo adequado para ter um mentor ou ser um mentor. Pode-se também pensar na formação de um grupo de mentores mútuos, colegas de uma mesma associação ou região. Não será fácil, mais por falta de tempo, menos por falta de disposição. No entanto, que tal tentarmos, ainda que pela bilionésima vez?

 

6. Os 11 homens de Deus mencionados acima serviram, cada qual, de modo diferente, como meus mentores na Homilética. Em maior ou menor grau, cada um deles investiu parte de seu coração e mente de pregador em meu ministério. E o que aprendi deles, seja diretamente ou por incentivo à pesquisa, ofereço como uma forma “light” de mentoria na área da Homilética. Alguma novidade para os pastores? Nenhuma! Venho compartilhando esse material com os colegas pastores, no todo, ou em parte, em diferentes ocasiões. Vejo-o tão somente como uma oportunidade de recordar idéias sobre o que todos consideramos indispensável: a Pregação Cristã.

 

 

1.  A Questão da Pregação

 

1.1. A natureza da Pregação.  O Novo Testamento não oferece uma definição formal do que seja a Pregação. Entretanto, alguns verbos utilizados no texto bíblico nos assistem na compreensão da natureza da Pregação (Fontes: “Vine’s Complete Expository Dictionary of Old and New Testament Words” e  “Steps to the Sermon”, de Brown, Clinard e Northcutt)

 

1.1.1.  “Kerussõ”:  “proclamar”, “anunciar como arauto”. Ocorre mais de 50 vezes em suas várias derivações, entre elas o termo “kerygma”.  Na raiz, a palavra “keryx” – mensageiro que tem uma mensagem de autoridade vindo de outro. No Novo Testamento, o mensageiro tem uma mensagem de Deus acerca de Cristo e, desde que esse mensageiro é designado por Deus, os  ouvintes devem ouvir e obedecer.  Textos: Mateus 3.1;  Lucas 4.18;  Romanos 2.21; Apocalipse 5.2.

 

1.1.2.  “Euangelizo”:  “pregar boas novas”. O verbo indica a natureza da mensagem, do que já ocorreu ou virá a ocorrer.  Textos: Atos 13.52;  Romanos 10.15;  Hebreus 4.2.

 

1.1.3. “Laléo”:  “falar”, “discursar”.  Textos: Marcos 2.2; Atos 13.42; 14.25.

 

1.1.4. “Dialégomai”:  “discursar com vistas a persuadir”, “disputar”, “ponderar”, “resolver na própria mente”,  “dialogar” através de uma conversa.  Texto: Atos 20.7,9.

 

1.1.5. “Parresiázomai”: “ser ousado no falar”. Texto: Atos 9.27 (2ª parte)

 

1.1.6. “Didásko”: “compartilhar a verdade divina através do ensino”. Textos: Mateus 4.23; 9.35: Romanos 12.7; 1 Timóteo 4.11.

 

 

1.2. Definições de Pregação

 

1.2.1. Andrew Blackwood, historicamente conhecido como o “deão dos professores de Homilética dos Estados Unidos”, em “The Preparation of Sermons”: “O que entendemos por Pregação?  Verdade divina através da personalidade ou a verdade de Deus enunciada por uma pessoa escolhida com o objetivo de satisfazer às necessidades humanas.  Por um outro prisma, a Pregação exige a intepretação da vida contemporânea à luz do que Deus diz hoje através das Escrituras”.

 

1.2.2. Phillips Brooks, em “Lectures on Preaching”:  “Pregação é a comunicação da verdade aos homens por meio de um homem. Há dois elementos essenciais – verdade e personalidade. Nenhum dos dois pode ser excluído, sob pena de a Pregação deixar de existir”.

 

1.2.3. Donald Miller, em “Fire in Thy Mouth”, enfatiza a chamada “Pregação Encarnada”:  “Pregar o Evangelho não significa tão somente falar algumas palavras, mas fazer uma ação. Pregar não significa t~]ao somente levantar-se atrás do púlpito e falar, ainda que eloqüentemente e eficientemente, nem mesmo enunciar um teologia, ainda que de forma clara  e mesmo que seja uma teologia valiosa. Pregar é tornar-se parte de um evento dinâmico, no qual o Deus vivo e redentor reproduz o Seu ato de redenção num encontro vivo com os seres humanos através do pregador. A pregação real é uma extensão da Encarnação neste momento contemporâneo, a transfiguração da Cruz e da Ressurreição, dos fatos antigos de um passado remoto para as realidades vivas do presente.  Um sermão é um ato através do qual o Senhor Crucificado e Ressurreto confronta pessoalmente os seres humanos para salvá-los ou julgá-los... Num sermão verdadeiro, Cristo é o Pregador! O Pregador (“P” maiúsculo) fala por meio do pregador (“p” minúsculo)”

 

1.2.4. Brown, Clinard e Northcutt, em “Steps to the Sermon”:  “Pregação é a comunicação eficaz da verdade divina contida nas Escrituras, por um homem chamado por Deus para testificar Dele acerca de um feito redentor, com o propósito de conceder a vida eterna por meio de Jesus Cristo”.

 

 

2. A Pregação no Ministério Pastoral

 

2.1. O Pastor e sua visão da “Pregação Bíblica”  (Fonte:  “In the Biblical Preacher’s Workshop”, de Dwight Stevenson)

 

2.1.1. “Pregação Bíblica” não é acúmulo de passagens bíblicas.  A Bíblia não é um arsenal de onde as passagens são tiradas e usadas como se fossem armas. A natureza bíblica de um sermão não é determinada pelo número de versículos bíblicos nele incluídos.

 

2.1.2. “Pregação Bíblica” não é um antiquário. O ser humano contemporâneo fica impaciente com um sermão que dedica 15 minutos à vida de algum personagem bíblico e apenas 5 minutos às necessidades atuais.

 

Jean Jacques von Allmen, em “A Pregação e a Congregação”, citado por Stevenson, faz o seguinte comentário: “A responsabilidade da Pregação, pela vontade de Deus, é traduzir Sua Palavra para outros idiomas que não o Aramaico, e faze-la contemporânea e presente às gerações que não os cristãos primitivos. É óbvio que a tradução aqui mencionada requer mais do que os recursos de dicionários e gramáticas, e tornar a Palavra contemporânea exige mais do que uma olhadela no calendário eclesiástico/litúrgico/denominacional. A Pregação, portanto, é um poder enorme para a unidade, uma vez que ela congrega todas as línguas (a saber, todas as nações), todas as eras ao evento central da História. Ao unir o povo de Deus, a pregação realmente une todo o mundo a fim de leva-lo na direção do seu Salvador e Senhor Jesus Cristo. A salvação serve Àquele em quem Deus faz convergir todas as coisas”.

 

2.1.3. A “Pregação Bíblica” não pode fazer seu ponto principal desaparecer sob uma avalanche de pormenores.  Pormenores que obscurecem podem prejudicar o sermão e um ou em ambos os aspectos: no conteúdo e na estrutura.

 

Podemos acrescentar mais uma observação: A “Pregação Bíblica” não pode confundir profundidade com complexidade, nem simplicidade com superficialidade.

 

 

2.2. O Pastor e sua visão do Púlpito

 

2.2.1. A prioridade da Pregação

2.2.1.1.  Plano de Deus – 1 Coríntios 1.21

2.2.1.2.  Firmeza da igreja – 1 Coríntios 2.1-5

 

2.2.2. A visibilidade da Pregação

2.2.2.1.  Oportunidade para expor sua filosofia de ministério pastoral

2.2.2.2.  Oportunidade para causar impacto na congregação. Apogeu e Perizeu do pastorado, segundo o Pr. Dr. Rubens Lopes.

2.2.2.3. Oportunidade para seguir um roteiro seguro de Hermenêutica Bíblica.  Uma sugestão sintética e concisa é de Henry Virkler, no livro “Hermenêutica”.  Outros roteiros existem, claro, e estão na competência de cada pregador escolhê-lo e seguí-lo. Ou então, combinar roteiros.

 

(a) Historicidade: análise histórico-cultural-contextual

(b) Semântica: análise léxico-sintática

(c) Conteúdo bíblico: análise teológica

(d) Forma literária: análise do gênero após sua identificação

(f) Exposição didática:  aplicação da passagem bíblica através do sermão/estudo bíblico

 

 

2.2.3. A qualidade da Pregação

2.2.3.1. Espiritual: (a) Conversão – o horror de Charles H. Spurgeon diante da idéia de um pregador não convertido (b) Chamada –  John Henry Jowett   (c) Vida devocional – Moisés e o “grupo de anciãos” preocupados com o endereço da sarça ardente;   Stanley Jones e o posto de escuta.

 

2.2.3.2. Moral: conselho do pai, Pr. Fausto de Vasconcelos - dinheiro e relacionamento com o sexo oposto.

 

2.2.3.3. Intelectual: Dr. John Newport – a cabeça de lambari num corpo de baleia.

 

2.2.3.4. Profissional: Dr. Kenneth Cooper  - Qualidade + Eficiência = Excelência.  Autenticidade, esmero.

  

 

Conclusão

 

Todo o esforço envidado com vistas à mentoria na área da Pregação Cristã tem como objetivo o cumprimento, em nosso ministério pastoral, da advertência paulina de 2 Timóteo 2.15: “Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra de Deus”.